No universo dos negócios, a linha que separa a vida pessoal da empresarial pode ser mais estratégica do que parece. Robert Kiyosaki, autor de Pai Rico, Pai Pobre, defende que o segredo dos ricos não está apenas em ganhar dinheiro, mas também em como gastam e estruturam suas despesas.

Em outras palavras, enquanto a classe média paga quase tudo como pessoa física (PF), os empresários inteligentes utilizam suas pessoas jurídicas (PJ) para absorver legalmente diversas despesas, reduzindo o lucro tributável e, consequentemente, pagando menos impostos.

Othon Andrade (Dr. Imposto) lembra que se for possível e legal transferir a despesa da PF para a PJ o lucro da empresa é reduzido, e com isso, é reduzido também o IRPJ e CSLL nas empresas de Lucro Real, que é de 24% para quem lucra menos que R$ 240 mil ano e 34% o lucro que excede R$ 240 mil.

Imagine transferir R$ 10 mil reais de despesa da PF para a PJ e gerar um crédito de R$ 3.400,00. Se o seu caso se enquadrar, esta é a idéia.

Em sintonia com Kiyosaki, o Dr. Imposto ressalta que, ao receber por meio de pró-labore ou salário, você paga primeiro o governo (IRPF e INSS) e só depois fica com o que sobra para gastar ou investir. Por isso, maximize a retirada de lucros isentos e transfira para a empresa, de forma lícita, o que puder ser contabilizado como despesa. A verdadeira lição de Kiyosaki é: pague a si mesmo em primeiro lugar. Mas atenção — tudo deve ser feito com bom senso, planejamento e documentação, evitando confundir luxo pessoal com despesa operacional, alerta o Dr. Imposto.

Abaixo, segue uma lista de despesas para que o empresário possa avaliar.

🚗 Transporte e automóveis

Compra de veículos pela empresa: dedutíveis via depreciação, sendo 20% ao ano para carros de passeio. Ou seja, a despesa anual é o valor do carro dividido por 5 e pode até gerar crédito tributário de 9,25% se a empresa estiver no Lucro Real e for usado para transporte em processos de prestação de serviço ou produção..

Locação de carros: custo integralmente dedutível e pode até gerar crédito tributário de 9,25% se a empresa estiver no Lucro Real e for usado para transporte em processos de prestação de serviço ou produção.

Combustível, manutenção, IPVA e seguro: dedutíveis quando vinculados a veículos da PJ.

Transporte por aplicativos (Uber, 99, táxi): se usados para reuniões e deslocamentos corporativos.Frotas locadas: para negócios que exigem deslocamentos constantes.

🏥 Saúde e benefícios

Plano de saúde empresarial: cobre sócios e colaboradores, reduz custo pessoal e é dedutível.

Seguro de vida e acidentes pessoais: se contratado como benefício corporativo.

Programas de qualidade de vida (ginástica laboral, assistência psicológica, ergonomia): dedutíveis.

Creche e auxílio-educação para filhos de funcionários: podem ser estruturados como benefício corporativo. Mas, tem que ser para todos.

✈️ Viagens e hospedagem

Hotéis, passagens, alimentação em viagens de negócio: plenamente dedutíveis.

Eventos, convenções e feiras: além de dedutíveis, fortalecem a rede de contatos.

Transformar viagens pessoais em convenções: como sugere Kiyosaki, uma viagem pode ser parcialmente tratada como encontro de planejamento, desde que haja ata, pauta e registros. Dá até para explorar isso na Holding Patrimonial.

Diárias e ajudas de custo: dedutíveis quando destinadas a viagens a trabalho.

🏠 Imóveis e moradia

Aluguel de imóvel utilizado pela empresa (escritório, filial, depósito).

Home office: rateio proporcional de aluguel, energia, internet e condomínio. Que sócio não trabalha em casa?

Imóvel em nome da PJ: pode ser sede, filial ou espaço para reuniões.

Aluguel pago a sócio pela PJ: PJ deduz como despesa, sócio declara como renda (planejamento útil em certos casos).

💻 Comunicação, tecnologia e trabalho remoto

Telefonia e internet: integralmente dedutíveis se usados no negócio.

Celulares e notebooks: comprados pela empresa, tratados como ativos.

Softwares, plataformas e aplicativos: custos de operação e marketing.

Assinaturas digitais (Zoom, Microsoft, Google, CRMs, ERPs): dedutíveis.

📚 Educação e desenvolvimento

Cursos, MBAs, workshops e treinamentos: dedutíveis se relacionados à atividade.

Livros, jornais, revistas e materiais técnicos: podem ser lançados como insumos de capacitação e atualização profissional e empresarial.

Idiomas: se usados no negócio (ex.: negociações internacionais).

Congressos e palestras: dedutíveis como capacitação profissional.

🍽️ Alimentação, reuniões e networking

Refeições em restaurantes: dedutíveis quando vinculadas a reuniões de negócios (guardar nota e finalidade).

Eventos sociais e culturais: se caracterizados como networking.

Associação em clubes (country club, associações comerciais, rotary, BND): podem ser tratados como investimento em relacionamento e prospecção.

🛡️ Proteção patrimonial e seguros

Seguros patrimoniais: incêndio, roubo, responsabilidade civil.

Holding familiar: estrutura que permite concentrar imóveis, investimentos e despesas de proteção patrimonial sob a PJ.

Blindagem de ativos: via seguros e estruturas jurídicas (consultoria necessária).

🎬 Entretenimento corporativo

Assinaturas de streaming (Spotify, Netflix, YouTube Premium): se usados em ambientes da empresa (academias, clínicas, recepções).

Eventos de confraternização (festa de fim de ano, aniversários): dedutíveis como despesas de RH.

🧾 Outros exemplos inteligentes

Uniformes e vestuário com logotipo: dedutíveis como despesas de marketing.

Fotografia, filmagem e marketing digital: totalmente dedutíveis.

Consultorias (contábil, jurídica, tributária, de gestão): dedutíveis como serviços de terceiros.

Presentes corporativos e brindes: dedutíveis quando oferecidos a clientes e fornecedores.

O limite: bom senso + documentação

Robert Kiyosaki alerta que a diferença entre a classe média e os ricos está em quem paga a conta: a PF ou a PJ.

No entanto, no Brasil, a Receita Federal pode glosar qualquer despesa se entender que não há nexo com a atividade empresarial.

Por isso, o segredo está em:

  1. Formalizar (atas, contratos, notas fiscais em nome da PJ).
  2. Justificar (mostrar como a despesa contribui para o negócio).
  3. Documentar (guardar comprovantes, relatórios, registros).

Importante: Princípio da Entidade e sócios na empresa

Do ponto de vista de economia tributária, transferir despesas da pessoa física para a pessoa jurídica pode gerar uma vantagem relevante, sobretudo em empresas no Lucro Real. Entretanto, essa estratégia costuma fazer mais sentido quando o empresário não possui sócios e não existe a perspectiva de venda do negócio. Isso porque, em sociedades, a utilização de recursos da PJ para custear despesas de um sócio específico pode gerar desigualdade entre os sócios e até conflitos societários, já que a mesma despesa não pode ser lançada em duplicidade. Na venda, o comprador pode classificar como risco na Due Diligence.

Além disso, existe um pilar fundamental da contabilidade: o Princípio da Entidade. Ele estabelece que o patrimônio da empresa deve ser separado do patrimônio dos sócios. Se essa fronteira é desrespeitada, há risco de confusão patrimonial, o que pode fragilizar a governança, gerar questionamentos de auditores, prejudicar a transparência societária e até abrir espaço para desconsideração da personalidade jurídica em processos judiciais.

É mesmo comum que o sócio abuse e tenha a despesa glosada pelo fisco.

Portanto, embora seja legítimo e vantajoso em termos fiscais quando bem estruturado, o uso desse tipo de estratégia deve observar a realidade societária da empresa e sempre respeitar a separação entre PF e PJ. Em alguns casos, pode ser mais indicado tratar parte das despesas como política de benefícios corporativos ou por meio de contratos formais, em vez de simplesmente transferir gastos pessoais para a empresa.


Conclusão

Dr. Imposto ensina que ao transferir legalmente despesas da pessoa física para a jurídica, o empresário consegue na empresa reduzir a base de cálculo do IRPJ e da CSLL, além de otimizar o fluxo de caixa da empresa e na pessoa física reduz o IRPF e o INSS.

Já Kiyosaki ensina que não basta ganhar dinheiro; é preciso pensar como rico: usar a empresa não só para faturar, mas também para gastar de forma estratégica.