A trajetória de sucesso de Marcia Aversani
De ginasta a árbitra internacional e vice-presidente na FIG
“É importante valorizar o profissional que trabalha com esporte. Em uma Olimpíada, é a ginasta quem sobe ao pódio. Mas, atrás dela têm muitos profissionais e ninguém ocupa cargos se não estiver preparado.”

De ginasta a árbitra internacional e vice-presidente na FIG
Ginasta desde os 10 anos, Márcia Aversani participou da construção da história da Ginástica Rítmica (GR) no Brasil e no mundo. Parou de competir aos 20 anos, mas jamais deixou o esporte.
Formada em Educação Física, tem especialização, mestrado e doutorado na área. Seguiu carreira na arbitragem, como árbitra estadual, nacional e internacional, sendo juri superior nas últimas Olimpíadas.
Atualmente, é vice-presidente do Comitê Técnico de Ginástica Rítmica da Federação Internacional de Ginástica (FIG), Presidente do Comitê Técnico de Ginástica Rítmica da União Pan Americana de Ginástica (UPAG), Coordenadora de Ginástica Rítmica da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG) e coordenadora e docente do curso de Pós-graduação em Ginástica Rítmica da Universidade Norte do Paraná (UNOPAR), em Londrina, cidade onde mora.
Sua dedicação à modalidade inspira e demonstra a importância de se preparar profissionalmente.
Ela não para. São ministrações em cursos para formação de novos árbitros, organização de competições internacionais, palestras, vida universitária... A rotina é puxada! Mas, entre uma viagem e outra, Márcia encontrou um tempo para conversar com a gente sobre sua trajetória no esporte.
1. Com 5 anos, você começou a acompanhar a sua irmã nas aulas de ginástica artística. Com 10 anos, participou da sua primeira competição como atleta de ginástica rítmica. Deu tempo de sonhar em ser outra coisa?
Eu acho que não. Eu segui o caminho da ginástica, do esporte. Eu tinha comigo que eu queria ser professora, então, fui ser professora de educação física. Houve um momento que eu fiquei um pouco balançada entre jornalismo e educação física, mas passou. Eu queria escrever, eu gosto muito de comunicação. Mas, ficou tudo na área da educação física mesmo, do esporte, então, escrevi livros de GR para treinadores.
2. Foi a professora Elisabeth Laffranchi quem te levou para essa primeira competição. O que ela representou naquele início pra você e o que ela representa ainda hoje?
Ela era a profissional que trabalhava pelo desenvolvimento da ginástica rítmica em Londrina, no Paraná. Na época, ela era professora universitária na Unopar [Universidade Norte do Paraná] e tinha uma disciplina de organização de eventos com os alunos de ginástica rítmica. Um dos alunos me convidou para fazer ginástica e ela me observou apresentando nesse festival. Achou que eu tinha jeitinho para a modalidade, tinha talento, e me convidou para praticar a modalidade.
Eu vejo ela no meu início como uma profissional preocupada em desenvolver uma modalidade esportiva e dar oportunidade para que crianças conhecessem essa modalidade e praticassem. Alguns anos passaram e realmente eu a considero minha mentora profissional.

Foi minha treinadora, minha professora e chefe na universidade. Quando eu era professora, ela era coordenadora. Quando eu era coordenadora, ela era reitora na universidade. E, no meio da ginástica, hoje eu ocupo na FIG exatamente o cargo que ela ocupou. Até então, a única brasileira a ocupá-lo. Então, eu acho que eu segui os seus passos. Eu fui bem orientada.
3. Que cargo é esse?
Hoje, eu sou vice-presidente do Comitê Técnico de Ginástica Rítmica da Federação Internacional de Ginástica. Há uma eleição a cada quatro anos. Quando acaba uma Olimpíada, começa um novo ciclo olímpico. Entramos no ciclo de Los Angeles, então, houve uma eleição no mundo para escolher sete mulheres. Uma é a presidente, que concorre em separado. As outras seis mais votadas são aquelas que vão, durante quatro anos, cuidar da ginástica rítmica no mundo, organizar.
É uma responsabilidade grande gerenciar a modalidade da ginástica rítmica no mundo, durante quatro anos. Estou no meu segundo mandato. Como fui eleita, entre as seis, com o maior número de votos, sou a primeira vice-presidente.
Neste mês de abril, por exemplo, tivemos a etapa da Copa do Mundo em Sófia, na Bulgária. Uma das nossas colegas dirigiu. Eu fui para o Azerbaijão, dirigir outra etapa da Copa. No Campeonato Mundial, a gente trabalha junto.
No início de cada ciclo olímpico, é necessário capacitar árbitros do mundo inteiro. Então, neste ano, foram três meses de bastante trabalho. Terminamos agora.
A Copa do Mundo de Ginástica Rítmica acontece em quatro etapas. A primeira foi realizada nos dias 4, 5 e 6 de abril, em Sófia, na Bulgária. A segunda (18 a 20/04), no Azerbaijão; a terceira (25 a 27/04), no Uzbequistão; e a quarta etapa, em Milão, na Itália, será realizada entre 18 e 20 de julho.
4. Em 1982, foi realizado o primeiro campeonato brasileiro da categoria infantil. A senhora tinha 12 anos e estava lá.
Em 1982, a gente foi para o primeiro campeonato brasileiro da categoria infantil e eu nem tinha noção disso. Em 1986, essa mesma equipe já era a seleção brasileira. Então, foi um grande desenvolvimento.
Em quatro anos, a gente [da equipe de Londrina] saiu de um município que estava começando a modalidade, para um município que já tinha a seleção brasileira de conjuntos, que é o nosso forte.

5. A sua história se confunde com a história da ginástica rítmica no Paraná, no Brasil e até no mundo. Quando a senhora iniciou, a GR era uma modalidade olímpica?
Não, ela se tornou olímpica em 1984. A GR é conjunto e individual. E o Brasil participou a primeira vez no conjunto em 2000.
Antigamente, somente a ginástica artística era olímpica, tanto que era chamada de ginástica olímpica. Agora, a GR também é olímpica, o trampolim também é olímpico... Do campeonato infantil em 1982 até hoje, a ginástica evoluiu bastante.
Quando eu iniciei, existia um campeonato chamado Quatro Continentes. O objetivo era desenvolver a modalidade no resto do mundo, porque na Europa já era muito forte. Em 2001, com a ginástica popularizada, esse campeonato desapareceu.
Era uma modalidade onde só as russas, as bielorrussas, as búlgaras brilhavam. Hoje, é mais democrática.
Vamos ter um Campeonato Mundial Juvenil na Bulgária, em junho, com 64 países inscritos. Realmente, a ginástica está no mundo todo e é gratificante ver essa evolução.
6. A que se deve toda essa evolução?
A evolução acontece em vários caminhos. Primeiro, a modalidade cresce quando o esporte olímpico ocupa seu espaço no mundo. Nos Jogos Olímpicos de Paris, o maior número de televisores ligados no momento da competição, no Brasil, foi na ginástica rítmica. O futebol é o mais visto no Brasil, mas a família não senta junto para assistir. A ginástica é uma apresentação, é um esporte da família.
Outro caminho é a evolução das regras. Isso possibilitou que o mundo inteiro se adequasse e pudesse participar.
O terceiro ponto é a evolução enquanto uma modalidade feminina. Para a FIG e para o Comitê Olímpico Internacional, a GR ainda é uma modalidade feminina. Tem homens que já praticam, mas oficialmente é feminina. É um espaço para mulheres e ocupado por mulheres. Nós somos educadoras, gestoras, temos espaço para trabalhar.
Por fim, a gente começou a ter muito mais competições. São competições estaduais, regionais, nacionais, sul-americanas, pan-americanas. O nosso continente também evoluiu bastante.
Hoje, as nossas menininhas da equipe ADR UNOPAR, aqui de Londrina, têm 11 anos e já são bi campeãs sul-americanas.
7. Tudo acontece muito cedo na ginástica. A prática da modalidade também acaba cedo?
Dentro dessa evolução também está a longevidade. Antes, começava cedo e terminava cedo. Agora não. Uma atleta vivia uma Olimpíada e parava. Hoje, temos ginastas na seleção brasileira que estão se preparando para a terceira Olimpíada. Isso era algo impensável.
Com a melhora nos equipamentos, no treinamento esportivo, na medicina esportiva, a ginástica se recupera melhor de lesões ou evita as lesões, então, elas ficam mais tempo.
Além disso, quando acaba a carreira como atleta, não significa o fim de tudo. Eu tive vontade e disposição para continuar me dedicando e ir em frente. E eu vou seguir.

8. Como foi a sua passagem de atleta para treinadora?
Hoje, no Brasil, a gente discute muito essa fase de transição. Alguns autores chamam de destreinamento. O que acontece?
O atleta passa a vida inteira dentro do ginásio treinando. Quando acaba esse tempo, ele está perdido, não sabe muito bem o que fazer. É importante que a fase de transição aconteça.
No meu caso, e acho que da maioria das meninas da minha época, não foi difícil porque a gente já cursava educação física enquanto treinava. Quando eu resolvi não treinar mais, eu já tinha um plano para trabalhar não só como treinadora, mas como como árbitra e professora na escola e na universidade também. Eu me preparei, me organizei.
A minha primeira geração, formada pela professora Elisabeth Laffranchi, é a aquela que cresceu e estudou a modalidade. Eu deixei de ser atleta, aos 20 anos, e me dedico a essa modalidade como profissional. Vou seguindo a formação como treinadora, árbitro, gestora, e em cargos que talvez nem existisse antes.
O Comitê Olímpico do Brasil oferece cursos para orientar os atletas até ele se reestruturar. O COB enfatiza sobre a importância de não abandonar o estudo porque, quando ele deixar de ser atleta, vai precisar seguir uma carreira, pode fazer uma especialização, um mestrado. Com as universidades online, isso facilitou muito.
No ano passado, eu e mais três colegas profissionais escrevemos um documento muito interessante para a Confederação Brasileira de Ginástica, junto com o Comitê Olímpico do Brasil. É o caminho completo do treinamento de uma ginasta: desde pequenininha até a fase de transição.
Assista a apresentação completa deste material.
9. E se tornar árbitra, era um desejo ou foi algo inesperado?
No início de abril, eu ministrei a parte teórica de um curso de formação de árbitros nacionais. Antes disso, trabalhei na formação de mais ou menos 300 árbitros internacionais. Desses, muitos são ginastas que estão na categoria adulto ou saíram agora e começaram a trabalhar com isso.
É um caminho natural para quem faz ginástica aprender muito sobre arbitragem. Se você conhece o que o árbitro vai avaliar, você pode ser uma melhor atleta, uma treinadora melhor.
Eu fiz o curso de arbitragem com 17 anos e ainda era da equipe. Gostei muito, me identifiquei e nunca mais parei. Depois, fiz o curso nacional, internacional e hoje eu sou júri superior na Olimpíada, posição conquistado pela experiência.
Ser árbitro também é uma carreira estadual, nacional, internacional. É um internacional que pode arbitrar sul-americano, pan-americano, depois, pode arbitrar Copa do Mundo, Mundial e, por fim, pode arbitrar uma Olimpíada. É um caminho longo.
10. Na última Olimpíada, você esteve lá como árbitra?
Eu fui como membro do Corpo de Técnico, mas a minha função era júri superior. Os árbitros davam nota e o júri superior dava nota. As notas precisam ter uma diferença muito pequena. Quando essa diferença é grande, a direção da competição assiste ao vídeo, como se fosse um Var, para que a nota seja realmente a mais correta possível.
Essa é minha função da FIG. Nós organizamos a competição de GR na Olimpíada. Organizamos os sorteios, as horas de entrada, supervisiona os voluntários, a parte da música... Ou seja, o Comitê Olímpico Internacional faz a competição, a sede, que era Paris, dá todas as condições, e a gente faz a parte técnica.

11. A Olímpiada de Paris foi muito marcante para a Ginástica Rítmica do Brasil. A Bárbara Domingos, no individual, teve uma participação lindíssima e a apresentação por equipe emocionou demais pela entrega, mesmo com a atleta machucada, a Victória Borges. Quais foram os efeitos dessa Olimpíada para a modalidade?
A Olimpíada de Tóquio [2021] ficou um pouco camuflado pela pandemia. Quando a gente sai de Tóquio, já entra no ciclo da Paris com uma qualidade maior e marcando mais presença internacionalmente. Fomos para os Jogos Olímpicos de Paris no conjunto como candidatos à medalha. A gente realmente tinha chance de ganhar a medalha.
Acontece que tudo tem seu tempo, e não era nosso tempo da medalha. Conversamos com a Camila [Ferezin], treinadora da seleção brasileira de GR, sobre os propósitos de Deus com isso. Eu acredito que, talvez, se a gente tivesse uma medalha, não haveria tanta reflexão sobre a modalidade.
O que aconteceu com a nossa ginasta, dela ter se machucado, chamou a atenção do mundo sobre o conjunto não ter uma ginasta reserva. É algo que a gente está brigando há muito tempo, exatamente para não sobrecarregar alguém que está propenso à lesão.
Atualmente, só cinco entram na quadra para fazer duas coreografias. Ela fez a primeira muito bem feita e estávamos em quarto lugar. Mas não conseguiu fazer a segunda coreografia porque, entre uma apresentação e outra, o pé virou. Talvez ela tivesse sentido alguma dor e não falado nada porque não adiantaria, não tinha ninguém para pôr no lugar dela.

Babi nas Olimpíadas
Bárbara Domingos encerrou Paris 2024 com o melhor resultado do Brasil na história do individual geral na ginástica rítmica. A curitibana foi a primeira atleta do país a se classificar para uma final da prova individual, somou 123.100 e conquistar um inédito 10º lugar. (Foto de Jamie Squire/Getty Images)
As ginastas deram a vida. Elas pegaram uma na mão da outra e disseram “ninguém solta a mão de ninguém”. Então, elas foram até o final e fizeram a coreografia como puderam. Isso chamou a atenção no mundo.
Foi uma coisa negativa para o nosso trabalho, porque a gente não conseguiu mostrar tudo o que estava preparado, mas foi positiva perante as políticas da modalidade.
O público começou a questionar o porquê de não ter reserva. Isso pressiona os órgãos, no caso, o Comitê Olímpico Internacional, a fazer uma mudança e oferecer uma vaga a mais para cada país.

12. Qual o futuro da ginástica rítmica no Brasil? O que esperar para as Olimpíadas de 2028?
Estamos trabalhando para ter o conjunto, em busca da sua medalha, e duas ginastas individuais na busca em manter a boa classificação da Bárbara.
A ginástica rítmica tem muitas praticantes no país inteiro, porque é fácil de iniciar a prática, não precisa dos aparelhos fixos ou importados. Pra começar, você precisa ter uma bola, uma corda, um bambolê (que oficialmente se chama arco), materiais muito fáceis de adaptar para a iniciação. Quanto mais praticantes, mais talentos são descobertos.
É um número muito grande de ginastas talentosas treinando, o grande desafio é organizar isso tudo financeiramente. Como trazer alguém de Manaus, por exemplo, para treinar em Londrina?
Hoje, a seleção brasileira está se concentrando Aracaju [Sergipe] sede da Confederação Brasileira. Atualmente, temos uma menina de Londrina na seleção de conjunto, em Aracaju. No decorrer dos anos, várias estiveram representando o Brasil. Quantas mais poderiam chegar lá se a gente tivesse um grande projeto?
13. Você é referência como profissional do esporte. Qual a orientação para quem quer seguir esse caminho?
Os que trabalham com esporte não são apenas ex-atletas, são profissionais de educação física. Muitos foram atletas, e depois estudaram.
Eu fiz mestrado, doutorado, e mesmo estando na FIG, eu tenho que estudar muito para poder dar os meus cursos. Preciso, por exemplo, dominar o inglês. Este ano, já dei curso no México, na Eslovênia, aqui no Brasil, inclusive, em inglês porque era para pessoas do mundo todo.
É importante valorizar o profissional que trabalha com esporte. Em uma Olimpíada, é a ginasta quem sobe ao pódio. Mas, atrás dela têm muitos profissionais e ninguém ocupa cargos se não estiver preparado. Só cresce e da continuidade com qualidade quem realmente se preparar.

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